17 de dez de 2012

S.




Guardou todas as lembranças, todas as crises de choro, todos os momentos perdidos. Guardou cada batida do relógio, cada dia de espera, cada suspiro. Guardou tudo dentro de uma caixa grande e colocou em cima de um armário velho. Juntou toda a esperança, toda a felicidade e o amor que lhe cabiam no peito. Alguns livros antigos, dinheiro, passaporte. Procurou fugir para algum lugar em que pudesse recomeçar, ser quem realmente era.

Passou alguns meses na praia, onde podia caminhar sobre a areia, deixar seus cabelos ao vento e não se preocupar com sua roupa. Passou também pelo campo, onde passava as tardes lendo seus livros amarelados, fazer seu café à sua maneira, acordar cedo. Passou pela cidade, onde pode se sentir mulher, salto alto, maquiagem, roupas novas. Passou por festas, lugares, pessoas.

Provou várias formas de amor, descobriu várias outras de como ser amada. Pulou muros, enfrentou desafios, fingiu ser outra pessoa. Disse que amava em vão, fugiu na ponta dos pés e passou o telefone errado. Mas também se apaixonou e disse toda a verdade. Caiu, se machucou e se reergueu. Porque viver é ser capaz de engolir críticas e transforma-las em elogios. Descobriu que não podia fugir, daquilo que à habitava desde sempre.

Juntou todas as coisas, carimbou o passaporte e voltou de onde nunca deveria ter saído. Tirou a caixa já empoeirada de cima do armário e relembrou cada momento ali esquecidos.  Discou seu número. Soluçou de saudade e implorou para si mesma para que ele não a tivesse esquecido. Disse que ainda amava e não tinha medo do que poderia acontecer depois. Arriscou e mesmo que não tivesse dado certo, ainda assim tentou ser feliz. Sorriu, suspirou, trocou de roupa e saiu pela noite atrás da felicidade que nunca deveria ter deixado partir.