Tayla Sanchez

Encontros e desencontros

22:40




Acordei cedo, na verdade nem dormi. Era pra ser uma sexta feira normal, como todas as outras. Meu ônibus só sairia às 16:30 e eu estava a mais de uma semana com insônia, desenhando e re-desenhando tudo aquilo que poderia acontecer. Olhava o relógio a cada cinco minutos, talvez menos. Tentei me ocupar para que o tempo passasse mais rápido, fui ao mercado, joguei vídeo game, gravei vídeos, tirei fotos, imaginei novas tatuagens e chorei de ansiedade.

Tomei banho, troquei de roupa trinta vezes, fiz e refiz minha maquiagem, decidi entre salto alto ou sapatilha. Escrevi milhões de mensagens mas nunca enviei. Carregava uma mala gigantesca, um livro e um coração cheio de sonhos. Imaginei cada momento. Imaginei a cor dos seus olhos, seu cabelo, sua fala, seu jeito. Naquele dia tentei evitar todas as nossas músicas que insistiam em tocar no meu celular, mudei de assunto inúmeras vezes quando me perguntavam para onde eu iria. 

Peguei o metrô até a rodoviária, me atrasei e corri para não ser deixada para trás. Guardei minha mala no bagageiro, subi para o segundo andar e me sentei próximo a janela. Esqueci de pegar minha única distração, todas aquelas palavras grafadas estavam em baixo de mim, a única maneira que eu tinha de direcionar meus pensamentos para longe de você ficaram no andar de baixo, entre uma camiseta rasgada e um shampoo. Abracei minha bolsa como uma criança assustada e adormeci. Acordei com as luzes se acendendo e as pessoas se movimentando e só consegui pensar Ah meu Deus, já cheguei? Mas era só mais uma daquelas paradas obrigatórias no meio da estrada.  Tomei água gelada, redefini meus pensamentos. Joguei minhas chaves de casa no lixo, por pura distração, e verifiquei o sinal do meu celular que só poderia estar baixo porque você ainda não tinha me ligado. Subornei o motorista para conseguir meu livro que tava lá na mala, mas foi em vão. Subi no ônibus e implorei para que pudesse adormecer um pouco mais, também em vão. Passei as próximas três horas sentada no escuro, tentando observar pelas janelas e deduzir quanto tempo ainda faltava.

Já faziam mais de oito horas que eu saíra de casa quando o ônibus finalmente fez sua última parada. Peguei minha mala, te enviei uma mensagem e esperei. Subi correndo até o banheiro, guardei minhas coisas numa daquelas chapelarias de rodoviária e esperei. Roubei um cigarro do meu amigo, segurei meus suspiros. Pegamos um táxi e saímos a procura de um bar próximo. Meu celular começa a tocar e me mostra seu nome, sua foto, seu número. Você disse que estava por perto e me pediu para esperar. E mais uma vez, eu esperei. Você chegou, eu entrei no seu carro e fomos para lugar nenhum, nos abraçamos. Conversamos sobre como São Paulo se tornou perigosa e outras coisas tão menos importantes.

Eu tinha imaginado tanto esse momento. Treinei minhas palavras, meus gestos e minha desdém para com meus sentimentos. Mas nada deu certo. Enquanto ouvia sua voz só conseguia imaginar o quanto eu queria dormir dentro do seu abraço, se eu não estava descabelada demais depois de tantas horas de viagem e principalmente em tudo aquilo que eu deveria dizer mas não consegui. Alguns minutos depois você se levanta e diz que precisa ir embora e eu agi como se não estivesse ali só por você.

Me segurei, fingi maturidade, quando tudo que eu precisava era me jogar em seus braços e dizer tudo aquilo que já deveria ter dito, fazer tudo aquilo que deveria ter sido feito. Segui com meu amigo pela cidade desconhecida, ficamos bêbados, fizemos amigos, choramos por motivos semelhantes, gravamos vídeos. Nós ainda trocamos algumas mensagens, mas depois daquele dia imaginei que nunca mais o veria novamente. Pensei que não houvesse mais motivos para que eu te pedisse para ficar e mais uma vez desisti. Voltamos para casa, guardando tudo aquilo que já estava ali a tanto tempo, me surpreendia a quantidade de você que ainda restava em mim.

Peguei o ônibus de volta. Voltei com os mesmos sonhos e mais palavras guardadas. Implorei para que este não fosse o fim. Desenhei novos reencontros. Guardei no peito toda aquela vontade de ficar. Muita coisa mudou desde então. Larguei meus cigarros, mandei fazer chaves novas, tatuei algo que me lembrava você. Mantive a esperança guardada a sete chaves junto aquele abraço. Antes eu pensava em como poderia ter sido, hoje penso em como será.


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