Marília de Azevedo

Free Spirit

15:36


Não se assusta não, mãe. Quando você encontrar essa carta, provavelmente já vai ter notado que algumas das minhas coisas andaram sumindo. Bem provável que eu tenha sumido também... Mas não se preocupa não, mãe. Isso não tem nada a ver com droga nenhuma, a senhora sabe da educação que me deu, então pode confiar, eu te juro, por mais que a curiosidade fosse grande, nunca passou disso, curiosidade.

Não tem nada a ver com amizades também, muito menos com algum garoto ou garota qualquer que seja.  Minha cabeça não é feita por ninguém não mãe, senhora sabe disso. Não se culpe mãe, porque isso também não é por causa da senhora. Por você eu trancaria meus sonhos todos numa caixinha para sempre se fosse necessário, mas mãe, a senhora nunca me pediria isso não é?

Vendi todo o excesso que acumulei durante esses que pareceram bons anos, mãe. Não havia mais espaço para tudo isso na minha vida, porque ela está sendo tomada por meus sonhos. Sim, eu vendi minha coleção de sapatos, minhas roupas caras e toda aquela parafernalha eletrônica.

A senhora deve estar achando que eu fiquei maluca, né? Talvez eu tenha enlouquecido de vez mesmo. Mas quem saber? Eu não já aguentava mais, não podia mais carregar o peso de tudo isso nos meus ombros jovens e já tão cansados.

A senhora sabe, mãe, eu nasci com um espírito livre e um coração mole. E acredite, foi só pelo coração mole que eu esperei tanto tempo para me libertar. Eu te juro, mãe, eu tentei ficar. Eu caçei motivos, eu me apeguei a pessoas, eu até desejei ficar. E você viu minhas lutas, mãe. Eu praguejei e briguei com o mundo e fiz ainda pior, eu lutei em vão contra eu mesma. Eu te peço desculpas, mãe, mas não posso mais.

Eu vendi minhas coisas e com a grana vou comprar passagem pra algum lugar. Eu acredito nas suas orações, mãe, acredito na sua fé, ainda que ela não seja a mesma que a minha. Ainda reze por mim, mãe. Ainda pense em mim, e não deixe que seu coração se parta com a minha partida. E saiba que onde quer que eu esteja ainda estarei pensando em você.

Eu mando notícias, mãe, eu prometo. Eu te conto onde estarei, assim que eu souber onde é também. Eu vou sentir falta do seu colo, mãe. Mas eu quero, pra não falar que preciso, sentir essa falta. E matar essa já tão conhecida falta que eu sinto do que ainda não conheci.

Eu volto, mãe, cedo ou tarde eu volto, nem que seja só de passagem. Nem que seja só pra comer o seu bolo de fubá com laranja. Eu ficar bem, mãe, te juro que eu vou. Eu sei que a senhora não me entende, então por favor, nem perca seu precioso tempo tentando. Mas me aceite, assim como eu sou. Assim como você sempre me aceitou.

Você sabe mãe, um dia a hora de me despedir chegaria. Me perdoe por não saber me despedir direito, cara a cara, palavra por palavra. Fique com o beijo que eu te dei ontem de boa noite. Fique com o abraço da ultima vez em que entrei em casa. Se cuida, mãe. E cuida do pai, você sabe que ele não é ninguém sozinho. Se cuida, mãe. E me perdoe. Eu te amo. Adeus.


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