Marília de Azevedo

O banco do lago

12:28



Pensando bem, acho que ele nem era tão bom pra mim mesmo. Acho que ele era bem cruel na verdade. Egoísta, apenas aceitava que eu fosse dele se não tivesse que compartilhar muito de seu mundo comigo.


Mesmo assim hoje vim aqui, me sentar no nosso banco favorito de tantos encontros, bem de frente para o lago e o pôr do sol. Nessa cidade que é minha, mas que se tornou tão sua que nem a tenho mais como lar. Lar é lugar de aconchego e segurança, e eu não me sinto assim estando tão rodeada de suas lembranças. Tudo bem, eu nunca me senti muito em casa nessa cidade mesmo. Essa gente não se parece comigo, e você que nem era daqui, hoje se parece tanto com eles.


Não era assim antes. Não foi esse cara que eu conheci, muito menos por quem eu me apaixonei. Você está perdido, eu entendo. Eu também já me perdi assim. Esse mundo de falsos prazeres e oportunidades que nos cerca e nos aprisiona longe de nossa essência. Foi num abraço teu que eu me encontrei depois. Aquele abraço, o tal do encaixe perfeito. Sei que só será assim com você. Por isso nem procuro mais em outros.


Por isso estou aqui hoje. Com aquela esperança idiota que você sinta essa mesma saudade, que venha querer reencontrar alguma lembrança que eu também procuro aqui. Perdidos nos desencontros, em meio a tanta mágoa e dor, será que podemos reviver os bons tempos? O minuto do abraço apenas, sem os pesares que ficaram para amargar todo o restante.


Difícil pensar nas coisas ruins nesse lindo lugar. Mas preciso me lembrar que se você quisesse, quisesse mesmo, estaria aqui comigo agora. Ou em qualquer outro lugar. Difícil superar a perda do seu abraço, bem mais difícil do que superar todas as vezes que você me magoou. Por isso vivo viajando para encontrar algo novo pra poder chamar de lar. Mas até agora, continuo sendo turista em todos. Principalmente aqui, onde deveria ser o meu lugar. Eu o concedo a você, desde que você seja feliz aqui.



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