amor

My hero

11:04

 
 
Todo dia dos pais era a mesma coisa. Eu bem pequenininha acordava mais cedo do que todo mundo. Pegava meu cobertor verde e o arrastava até a sala. Ligava a TV no canal de desenhos e ficava esperando todos acordarem. Qualquer barulho que vinha do quarto dos meus pais me dava aquela pequena esperança de que eles já haviam acordado, mas eu continuava em silencio.
 
Minha mãe levantava e começava a preparar o almoço. Meu pai sentava na sala e roubava a TV de mim. Assistíamos a corrida juntos, a espera de que o Senna fosse mais uma vez campeão. Não posso dizer com certeza que era meu programa preferido, sempre achei aquilo um tanto confuso mas assistia e ficava bem atenta aos comentários que saiam baixinho dos lábios dele.
 
Foi assim também com o futebol, mas esse eu aprendi a gostar com o tempo embora tenha começado a torcer contra o time dele e a favor do rival. Ele me ensinou a andar de bicicleta e de skate. Sempre fui meio menino, confesso. Porque além de brincar de bonecas eu amava fazer coisas que meu pai gostava.
 
Nós íamos ao clube no verão. Eu saia da piscina morrendo de calor e depois íamos comer um lanche na padaria em frente, que aliás ainda existe. No inverno íamos ao cinema, ou no shopping. Ou fazíamos qualquer coisa juntos, como assistir filmes na casa dele e queimar a cozinha tentando fazer hambúrguer. Dizem que puxamos muito dos nossos pais, o que puxei do meu foi com certeza o jeito atrapalhado e criança de ser.
 
Dançávamos juntos nas festas de casamento e aniversário. Ele entendia quando preferia usar jeans velho e tênis ao invés de vestido como todas as outras garotas da minha idade. Me ensinou a gostar de música boa e que nunca fica velha. Hoje fica implicando comigo toda vez que danço um pagode ou sertanejo perto dele só para ouvir "essa é do rock, imagina se não fosse".
 
É claro que com o tempo as coisas mudaram, porque elas sempre mudam. Antigamente saia correndo, pulava em seus braços e dizia que o amava. Hoje tomamos cerveja juntos e discutimos sobre a vida. Me sentia orgulhosa e feliz quando diziam que éramos fisicamente parecidos. Hoje as vezes peço aos céus que ele saiba o quanto o amo, porque não digo mais com a mesma frequência. Tá aí mais uma das características dele, a gente acha que não precisa dizer que ama porque o outro sempre sabe.
 
Ai ele me liga de madrugada, pergunta quanto tempo vou demorar e me diz para tomar cuidado com o trânsito. Essa é a forma de demonstrar seu amor. No domingo continuamos a ver TV juntos, no mesmo sofá. Dessa vez o obrigo a assistir a competição de skate vertical. Ele diz que eu estou no espaço dele e me manda ir embora, eu o jogo do sofá e ele me diz para correr se não apanho. E essa é a minha forma de demonstrar amor. Meio errado, extremamente cheio de carinho, uma pitada bem grande de ciúmes e um pouco de implicância, mas ainda assim é amor.
 
 
 
 

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