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Contra fluxo

14:10

Jakub Sodomka


Eu queria ser normal. Daquelas garotas que vivem na mesmice com seus pensamentos caminhando lado a lado sempre. Aquela preocupação sobre o que os outros vão pensar de mim, usar maquiagem todos os dias, pentear o cabelo, ser educada e da forma que todos esperam que eu seja. Ser menininha com suas meninices. Gostar de sushi, preferir suco de laranja e ir a academia todos os dias. Ler best sellers que falem sobre mim, garota frágil e indefesa que é pisoteada pelo mundo e que mesmo assim encontra o amor e o sexo.

Queria ir para várias boates toda semana, beber água adoidado, contar caloria dos alimentos, pedir salada no almoço e um chá gelado no jantar. Me preocupar mais com a minha aparência externa porque, de novo, o que é que vão pensar de mim se me virem assim? Saber dizer a coisa certa na hora certa. Viver em função do meu eu externo e do meu lado cultural não memorável sempre a ativa.

Queria ser normal, ter tatuagens pequenas e insignificantes como todo mundo. Trabalhar como secretária e ser diariamente pisoteada pelos meus chefes. Chegar em casa, dar aquele beijo superficial no meu marido que eu talvez nem ame de verdade. Criar meus filhos como se criam gados, todos iguais, seguindo a mesma vida com o mesmo destino. Assim como eu fui, criada, moldada e esculpida pela sociedade normal. Porque na verdade eu queria ser normal.

Mas ai descubro que eu, skatista atrapalhada desde os dezessete, prefiro música ao invés de cultura inútil. Odeio suco de laranja, comida crua e pentear os cabelos. Gosto de cultura nerd, tecnologia, livros nacionais com finais não romancistas, embora sempre me entregue aos romances como uma boa mulher. Lembro que tenho tatuagens que fazem sentido apenas para mim e não para o mundo. Que me identifico com Fernando Pessoa e seus heterônimos. Que prefiro praia a noite num domingo chuvoso do que tomar Sol o dia todo numa piscina de concreto.

Me lembro de como é bom subir na garupa de uma moto e sentir o vento nos cabelos, sem se preocupar como eles estarão assim que os freios forem acionados. Penso no gosto da cerveja gelada e como é bom passar a noite de sexta feira no bar rodeado por amigos. Falar palavrão, preferir o sanduíche de bacon e poder conversar sobre tudo com todos, ou quase. Vídeo game, filmes de terror, pizza fria no café da manhã, sexo que vai além da preocupação com meu corpo. De como é legal ser observada pelas pessoas e julgada como louca ao ir à padaria de pijamas e chinelo.

Fico pensando em como é ser normal. Com todas as suas incoerências e máscaras impostas pela sociedade. Disseram-lhe "pega-a e use-a", você foi e fez. Seja, faça, aja, compre, use, não beba, não fume, não fale palavrão, salto alto, batom vermelho, cabelo liso, música eletrônica. Só esqueceram de ensinar a não amar em vão, mas ai é outra história.

Eu queria ser normal, até descobrir que o que na verdade eu queria que vocês o fizessem.



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4 comentários

  1. Adorei :D
    Beijus, www.brilhesempre.com <-------

    se puder visita também - www.nossomosmoda.blogspot.com

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  2. Gostei do seu texto Tayla, mas também não dá generalizar deste jeito né? Quem define o que é ser normal?

    Beijos

    ascarus.com

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    Respostas
    1. Exatamente Nati! Precisamos descobrir que ser normal é sermos nós mesmo =D

      beeijos ♥

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Comentários

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