13 de abr de 2014

Amores que vem e vão - O cara da bermuda rasgada


Ele tinha o riso frouxo e a bermuda rasgada que eu odiava. Quando estávamos no carro ele segurava minha mão esquerda enquanto mantinha a outra guiando o volante. As vezes eu ouvia o motor implorando por uma marcha mais leve, mas ele não soltava minha mão para fazer isso. E quando o fazia, colocava-a de volta mais rápido que podia. Como se não quisesse me deixar sair, fugir ou ir embora. Eu achava isso fofo. Nunca fui muito romântica com nenhum relacionamento. Sempre detestei ter que fingir ser outra pessoa, concordar com tudo e ficar de draminha. Comigo era diferente. Com ele eu conseguia ser eu mesma.

Nós saíamos toda sexta feira. Íamos para o mesmo bar. Ele pedia duas cervejas porque já se acostumara com meu jeito - no começo ele insistia em me pedir um Martini. Ficávamos a noite inteira conversando, sobre tudo. Ele dizia o quanto seu trabalho era chato e eu o encorajava a mudar de emprego. Eu contava sobre meus trabalhos da faculdade cada dia mais acumulados e ele dizia que iria me ajudar. Diferente de outros casais nós tínhamos um imenso leque de assuntos para conversar.

Ele era fã de Rolling Stones e encheu meu apartamento de CD's e posteres. Eu não gostava muito antes de conhece-lo mas acabei me acostumando. Ele chegava em casa sexta feira, depois do bar. Nós sempre prometíamos ir para frente do computador mas a cama sempre era a melhor alternativa por fim. Não conseguia manter meu corpo muito tempo longe do dele. Eu gostava do seu toque, do arrepio que me subia pela espinha, dos seus beijos molhados e seu abraço apertado. Tão apertado que as vezes machucava - mas eu gostava - e ele sussurrava um pedido de desculpas.

Sábado era dia de reunir os amigos. Convidávamos todos os casais e solteiros que conhecíamos. Ficávamos acordados até o amanhecer observando o Sol surgir pela janela da sala enquanto um novo casal se formava no banheiro. No domingo cedo ele saia para levar o Rick para passear. E lá se iam o garoto de bermuda rasgada e o dálmata magrelo correr pelas ruas de São Paulo. Ele só ia embora de fato na terça feira. Ele conquistou uma gaveta no meu banheiro, duas no meu armário e um espaço enorme dentro do meu peito. Dois dias era o tempo que eu tinha para me recuperar fisicamente para próxima semana. Cabelo, unha, maquiagem e todas aquelas coisas que eu sequer me importava antes dele chegar.

Lembro-me quando era criança e minha vó dizia "não vai passar nenhum batom pra sair fia?". Eu só pensava que isso era a maior besteira do mundo, se alguém tivesse que se apaixonar por mim que fosse de cara lavada, olheiras azuis e calcinha bege. Que me ame pelo que sou e não pelo que pareço ser. Mas é claro que todo esse pensamento feminista foi por água abaixo assim que ele chegou. Eu mudei por dentro e por fora. Mas não fui obrigada a isso. Foram apenas consequências do amor. Maldito sejas por fazer com que as pessoas percam o sentido das coisas.

Hoje eu observo a chuva cair pela janela. Por hora detesto seu carro por não ser automático para que ele pudesse segurar minha mão a viagem inteira. Ele estaciona na frente da garagem e sai correndo pela chuva com uma mala pequena, com duas peças de roupa para ele usar a semana inteira, e aquela maldita bermuda rasgada.

  


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários