abuso

Desabafo de um par de peitos - eu não mereço o seu assovio

10:00


Morava em Piracicaba, uma típica cidade do interior que cresceu demais, populacional e economicamente, mas continuou com o espírito pequeno em muitos aspectos. Desde que tinha uns 13 ou 14 anos já ouvia cantadas e assovios ao andar na rua. Isso me deixava encabulada. Era bem ainda o patinho feio da minha turma, no auge da puberdade, cheia de espinhas, aparelho no dente, cabelo enlouquecido, magrela, sempre de bermudas e camisetas largas que nada mostravam do corpo de mulher que nem tinha acabado de se formar ainda. 

Nada mudou quando fiquei um pouco mais velha, no colegial, com jeans e camiseta do uniforme do colégio, saindo para almoçar em qualquer lugar por perto entre uma aula e outra. Procurava não me aborrecer muito, agora que eu era uma mocinha mais ajeitadinha, achava que não poderia evitar uma cantada ou outra. Mas as coisas não melhoraram. No meu primeiro emprego de verdade era balconista de uma loja de confecção popular. O uniforme era uma leggie tosca, camiseta larga e cabelo sempre amarrado. Fosse no horário de almoço indo até a padaria ou no final do expediente, toda empoeirada e acabada, não escapava do assedio dos homens na rua. 

No meu segundo emprego piorou. Era numa loja de cosméticos, então tinha que trabalhar maquiada e o uniforme era calça social e casaquinho com o logo da empresa. Nessa época comecei a fazer um curso técnico também. Saia de casa de manha para o trabalho e pegava o ônibus para a faculdade no final do expediente, já com olheiras de cansaço, e ainda assim os assédios só aumentavam neste trajeto e até que eu chegasse em casa tarde da noite. Comecei a ficar com cada vez mais medo de andar sozinha na rua, ao ponto de muitas vezes minha mãe ter que me ir me buscar na faculdade porque não queria que esses assédios “inocentes” virassem algo mais grave. 

Muitas vezes os caras passavam com o carro devagarzinho e até paravam para mexer comigo, mesmo que eu acelerasse o passo e fingisse que não era comigo. E não era comigo. Era com toda e qualquer mulher. Cortei meus cabelos e seria muita inocência da minha parte achar que isso mudaria alguma coisa neste sentido. Mudei de emprego novamente, agora era funcionária pública em um hospital. Nesse momento o assédio chegou ao cúmulo de um guarda ter que tirar um individuo de dentro do hospital porque ele não me deixava trabalhar em paz. 

Fui transferida para outro prédio, com menos contato com o público, mas mesmo assim, usando minhas adoradas saias longas, óculos de grau e sapatilhas nos pés, tentando ser o máximo discreta possível, recebia incontáveis assovios e cantadas toscas enquanto esperava o ônibus para ir embora. Então larguei tudo. Passei na faculdade e me mudei para outra cidade menor e mais do interior ainda. 

Hoje  me visto o mais desleixadamente possível para ir ao campus. Chinelos, saias, shorts, camisetas surradas, vestidos soltos, não importa a roupa. Não importa que eu esteja com um lenço cobrindo até meu cabelo nos dias de chuva. O assédio continua o mesmo. Não porque eu sou bonita. Não porque eu sou gostosa. Não porque eu me visto bem. Não porque me visto provocante. Não porque eu sou simpática. Não porque sou heterosexual, bisexual ou homosexual. Ninguém me perguntou. Ninguém se importa. O assédio acontece pelo simples fato de eu ter nascido mulher.



Este texto foi escrito em primeira pessoa porque é apenas o desabafo de uma mulher, como outra qualquer, cansada de ouvir as mesmas histórias que as suas e não ver nada mudar. Isso sem contar os casos mais graves, que se você não passou, sorte a sua. Acredito na velha máxima de que nada muda se você não mudar. Mas mudar o que? Não adianta fugir, fingir e nem esbravejar. Quem sabe ganhemos pelo cansaço. Repetindo e batendo nesse ponto até o dia em que o último homem solte seu último assédio desnecessário e passe vergonha. Cansei. Não de ser mulher. Mas de ser assediada.

Se você acha que estou exagerando, veja este vídeo, gravado por uma americana durante 10 horas em que ela foi assediada mais 100 vezes!



Por todas às vezes, por todas as mulheres, por todas as cantadas, por todos os assovios, encoxadas e mãos bobas, um dia isso tem que parar. Por favor, por educação, por respeito, pela mulher que te pariu ou que te criou com todo amor de uma mulher, parem. Ninguém gosta de receber seus “elogios” no meio da avenida, ônibus, ou seja onde for. Mais uma vez, por favor, apenas parem. Está ficando chato ter que repetir já.


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1 comentários

  1. Falou tudo, passo por isso todos os dias. E assim como ela falou, não importa a roupa os homens sempre arrumam um motivo para o assédio. Sinceramente acho isso insuportável, as vezes fico até envergonhada de andar na rua, prefiro mil vezes ficar dentro de casa. Alguns assédios dão até medo. Moro em uma cidade pequena, e sempre vou aos lugares sozinha e morro de medo de algum abuso.
    Entendo do que se trata e amei a postagem. Beijos.

    By: Mari Vieira
    http://clichee-adolescente.blogspot.com.br/

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