24 de nov de 2014

Sobre olhares, amor e Charlie Bukowski


Cheguei, um dia, a cobiçar olhares apaixonados trocados, acompanhados de sutileza e uma percepção pública mínima. Aqueles olhares que você só percebe se prestar muita atenção. Só percebe se seu olhar é de reciprocidade. Só percebe se souber interpretação de texto em pupilas dilatadas.

Cheguei, um dia, a cobiçar olhares únicos que enxergam-te por quem tu és. Enxergam-te além da superfície. Além dos poros, da maquiagem, da carne, da pele. Enxergam-te através de qualquer massa ou fluido corporal. Não lembro onde li a respeito dos olhos serem as janelas para a alma. E cheguei, um dia, a cobiçar um olhar que enxergasse além dos vidros da minha janela. Além dos pontos castanhos que enfeitam minha íris.

Teu medo em ficar sozinho disfarçado em excesso de confiança. Teu romantismo disfarçado por um sorriso malicioso. Era o tal pássaro azul de Charles Bukowski se libertando do seu coração e pousando em teus olhos pretos puxados. Sorríamos com os lábios, com os olhos, com suas mãos passeando sobre a pele morna do meu rosto e com as minhas que eu nem lembro mais onde deixei.

Era o meu coração transbordando e derramando nas calçadas daquele beco escuro e vazio que só dava espaço para uma única companhia. A companhia do teu olhar. Aquele que eu tanto queria, mas que quando tive, ultrapassou o que eu já havia imaginado sentir.

Era o amor brincando conosco por meio de gestos e entrelaçar de dedos.

Quem nos espionava pela janela devia sentir inveja por não ter conhecido um pássaro azul como aquele teu que virou meu também. E ríamos. Ríamos e sorríamos para quem quer que nos olhasse. Corríamos e andávamos sem saber pra onde. Dançávamos e pulávamos no meio da rua. Nos escondíamos e nos beijávamos como duas crianças fugindo dos pais por terem feito coisa errada.

Sempre achamos saber o que é o amor... até amar alguém de verdade.

O amor que mora nos detalhes, nos mormaços de sol que soam tão inofensivos, mas queimam a pele com voracidade. Sem que percebamos que estamos sendo queimados, continuamos ali. Eu, o pássaro azul e o teu olhar por descendência puxado.

E seja em qual continente você estiver. Aquele será o olhar que eu nunca vou me esquecer.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários