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Luz de velas

10:54

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Cheguei em casa atravessado de fome. Eu não, o dinossauro que vive em mim. Quando eu era  criança, fui amaldiçoado por uma velhinha que era uma bruxa e ninguém sabia. Além da  maldição da barba, ela fez com que eu tivesse a maior de todas as fomes do universo, até mesmo Galactus se espantaria se me visse.

Cheguei em casa e o dinossauro que reside em meu estômago estava irritadíssimo de fome, quando ele fica assim costuma morder e arranhar meu estômago para que eu entenda o que está acontecendo. Isso explica muito bem as causas da minha pseudo-gastrite que nada mais é do que um dinossauro muito, muito, muito irritado tentando arrebentar meu estômago de dentro pra fora. Como eu fiz compras ontem, a geladeira está razoavelmente cheia, o que me dá uma bela liberdade de escolha com relação ao prato do dia e como hoje é sexta-feira e eu não tenho aula, posso perder horas, minutos e segundos na cozinha preparando a janta.

E assim foi feito. Peguei umas verduras aqui, uns legumes ali, piquei uma cebola e refoguei com um pouco de shimeji na manteiga, cozinhei umas mandioquinhas e quando eu parei pra ver estava tudo pronto, mas havia algo diferente. O prato estava montado. Eu nunca monto pratos, nunca elaboro eles, simplesmente taco a comida em cima de qualquer jeito e como, às vezes fica feio pra caramba parecendo vômito de camelo.

Eu não tenho o hábito de colocar uma coisinha aqui e outra ali, alinhar as coisas. Mas hoje eu fiz isso, sem perceber. Coloquei o tomate fatiado de um lado, a rúcula e o agrião do outro, fiz uma montanha de queijo pra colocar os cogumelos por cima ainda quentes (e deu muito certo, o queijo derreteu e ficou muito bom), coloquei a mandioquinha no meio e a abobrinha do lado. Ficou lindo, bem colorido, bem organizado, bem temperadinho. Dei um passo pra trás e reparei na minha obra de arte.

Ai me deu vontade de sentar no chão da cozinha e chorar. E sim, eu estou falando sério. Porque faltou algo ali, faltou algo que me deixou um tanto confuso e desesperado, me deixou um pouco sem chão. Faltou outro prato.Eu queria ter feito aquilo duas vezes e não uma só. Queria ter tido o dobro do trabalho, ter feito o dobro de comida, ter picado dois tomates e arrumado dois pratos. Porque é chato jantar sozinho.

Naquela hora ali eu fiquei pensando em quantas pessoas ao redor do mundo não chegam em casa e simplesmente aquecem alguma gororoba de micro-ondas pra jantar assistindo tevê. Como se comer fosse um ato corriqueiro do dia-a-dia. Fiquei imaginando como pode o mundo estar tão doente assim? Eu queria ter pra quem cozinhar, de verdade. Eu quase tive vontade de sair na rua e procurar um mendigo e falar “Mano, vamo ali jantar comigo.”

E ai me lembrei de uma coisa que foi recapituladas ontem durante a aula de filosofia: Nenhum homem é uma ilha. E pensei cá comigo, enquanto comia meu shimeji e bebia meu suco de laranja que, realmente, a solidão é o maior dos males do nosso mundo.

Sei muito bem me sentir bem comigo mesmo. Mas será que isso é algo natural meu ou será que essa “autossuficiência” emocional não foi criada por mim pra combater os períodos nos quais eu sei que ficarei sozinho. E quantos outros no mundo também não são assim? Se bastam porque se obrigam a se bastar. É. O mundo te esmaga sem você perceber. E eu só queria alguém pra jantar comigo.


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1 comentários

  1. Muito bom esse texto. Parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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