amor

Você tem certeza?

12:01

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Você estacionou o carro em frente ao portão cinza e quase implorou pra que eu não ficasse ali com aquela cara de “você não está fazendo isso comigo”, enquanto eu fiquei relutando contra as minhas coxas que insistiam em grudar no banco de couro bege. 

Assim que eu me despedi e disse “então até breve”, logo depois de você ter dito “obrigada”, eu sabia que precisaria de muito equilíbrio pra andar em direção ao portão cinza. E precisei. Andei com um pé na frente do outro na corda bamba tentando achar o maço de chaves na bolsa, meu corpo estava pendendo pro lado da corda que não me deixaria entrar em casa sem antes te olhar nos olhos e dizer “você tem certeza?”.

O “VOCÊ TEM CERTEZA?” em repet na cabeça e o pé batendo freneticamente no chão enquanto não achava as malditas chaves do portão. Joguei a bolsa na calçada, entrei no carro e a gente ficou em silêncio. Aquele mesmo silêncio que você fazia no começo quando me ligava. Não era um silencio desconfortável, era acalento pros ouvidos cansados. 

Aquele silêncio que a gente não precisa falar da chuva pra cessar, porque gostava dele, porque se encaixava nele, porque ele dizia muita coisa, coisa que você não sabia dizer quando tentava.

A coxa já estava começando a grudar de novo quando você tirou os olhos que estavam fixos no pára-brisa, e me olhou. Ficou assim em silencio por um tempo, e eu deixei pra lá a minha postura de mão na cintura, sobrancelha levantada e “você não vai falar nada?”.  Eu não queria que você dissesse, no fim.

Eu continuei sentindo os seus olhos sobre mim enquanto coloquei a mão sobre as sobrancelhas e fiquei na mesma posição por um tempo, segurando com força o choro que insistia em ficar na garganta. Dai sua mão começou a chegar perto da minha perna e eu criei coragem pra te olhar de volta. “Vem cá”, foi a ultima coisa que eu escutei antes de desabar nos seus braços que sempre deram três do meu. 

Eu dizia “que droga”, enquanto afundava meu rosto no teu peito e sentia você fazendo carinho no meu cabelo.

E repeti o “que droga” assim que sai dos seus laços e olhei meu rosto no retrovisor, metade da maquiagem tinha escorrido pelos olhos e ficado pela bochecha, a outra metade num borrão preto na tua blusa cinza. E eu ri, de alivio, e você riu, de mim.

“Vai ficar tudo bem, maluca, nós vamos dar um jeito nisso, ta? Só vai com calma”. Você disse, enquanto passava o dedo no borrão embaixo dos meus olhos. Depois me beijou daquele jeito que eu não saberia explicar nem se fosse à dona de todas as palavras do mundo, e eu retribui, porque era o melhor que eu poderia fazer.

Antes de abrir meus olhos, eu disse daquele jeito quase inaudível “você tem certeza?”, e você fez “shiu”, me beijando de novo. “Você tem certeza?”, eu sincronizava o fôlego com a pergunta que você insistia em ignorar. Depois de me puxar pela cintura e me colocar no teu colo, enquanto minhas costas batiam no volante, você disse “eu não preciso de droga de certeza nenhuma, eu preciso de você”.

Perguntou se podia entrar e ficar por ali, eu não sabia se você estava falando da minha vida ou da minha casa, mas insisti no “você tem certeza?”, daí você tirou o meu maço de chaves do bolso, jogo pro ar e o pegou, me olhou sorrindo e disse:

“Tenho”. 


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1 comentários

  1. Adorei a história achei super fofa! Gosto muito do jeito que você escreve!
    Bjos :**

    http://www.mar-de-ideias.com/

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Comentários

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