contos e crônicas

Ana e Mia - Um desabafo sobre os padrões da sociedade

11:36


Hoje Aline não abriu os olhos. Hoje ela não levantou da cama, com dificuldade explícita graças a pouca força que tinha para se movimentar. Hoje Aline não levou esse dia como mais um na sua vida. Não houve mais um dia de luta, muito menos dias de glórias. Não houve esperança, afeto ou carinho que a fizesse se sentir bem. Hoje Aline não acordou. Hoje Aline foi mais uma vítima daquela que outrora se dizia sua amiga - a tão amada Ana como conhecida por muitos. Hoje Aline, amanhã Juliana e depois Fernanda. 

É frescura, eles dizem. É falta de amor, eles apontam. São médicos, nutricionistas e outros tantos formadores de opiniões que nem sei por onde começar. Eu não conhecia Aline - aliás esse é um nome fictício. Mas Aline existiu de verdade, morava poucas quadras da minha casa e lutava diariamente contra aquela que pega muitos de surpresa. 

E não só garotas. 

Não só jovens. 

Não só classe média.

Quando você se dá conta ela apareceu.

Não sei se começo pedindo desculpas à Aline e sua família em nome todos ou se me junto a eles num coro de suspiros e saudade. Aline não tinha culpa, ela só queria se sentir desejada. Aline não tinha culpa, ela só se enganou quando pensara que isso a faria ser amada. 

Aline só tinha 15 anos. Aline deixou uma irmã, que hoje sorri sem saber que nunca mais poderá vê-la. Deixou uma mãe, que a amava acima de tudo. Deixou amigos, família e pessoas que se importavam com ela. Aline deixou esse mundo como só mais uma.

Aline foi só mais uma garota para entrar na estatística. Aline foi mais uma que acordava todos os dias, tirava sua roupa, subia na balança, olhava seu reflexo no espelho e chorava até que suas costelas doessem. Foi só mais uma garota que outrora fora julgada pelos seu tamanho fora do normal, por suas coxas grossas e seu quadril tamanho 42 - mal sabia ela que depois seria julgada também por usar um 36 largo.

Era uma daquelas garotas controladas por essa tal amiga. A amiga que ensinava, em inúmeros tutoriais na internet, como fazer com que as pessoas não percebam a presença dela. A amiga que ensinava como sanar as dores de estômago, como se manter ereta e como os garotos achavam lindo seus ossos expostos e o vão entre as pernas. Amiga que pedia para que Aline usasse elásticos no pulso como forma de incentivo, que se punisse caso saísse da dieta.

A amiga que ensinou a contar as calorias de cada alimento, até que não fosse mais necessário por atingir o objetivo principal que era nunca se alimentar. Ou se alimentar o suficiente para não desmaiar e gerar desconfiança da família. Aline foi mais uma que lutou contra si mesmo em busca dessa amiga. Aline foi mais uma que lutou para se livrar dela. Aline foi mais uma que não conseguiu.

Aline não queria isso para ela. Não imaginava o que isso poderia causar. Ela só queria ser aceita. Entre cortes profundos no braço, como forma de suprir a dor de não ser aceita pela sociedade, além do estômago que parecia dobrar no meio, e as imagens que mantinha próximo - em celulares, na parede, no computador, em programas de TV - como um incentivo para que seu corpo fosse igual aqueles. 

Entre aqueles que diziam que a magreza lhe caia bem melhor do que suas curvas e outros tantos que a julgavam por ser fraca e deixar algo assim controlá-la. Entre os médicos sem diploma, os formadores de opiniões e os "amigos" que precisam julgar o próximo para se sentirem bem com eles mesmos.

Entre lágrimas e dores de estômago. Entre idas a hospitais e médicos diferentes. Entre a luta diária pela sobrevivência. Aline se foi.

Mas Aline não e só mais uma garota. Ela poderia ser você, sua irmã, sua vizinha - assim como era minha. Ela poderia ser a sua mãe, o seu primo, seu melhor amigo. Ela poderia ser alguém que você ama! 

Aline poderia ser eu.

Não deixe isso te consumir. 

Não deixe as pessoas dizerem que você não é perfeita. 

Não deixe ninguém te julgar pelo seu corpo. 

Não deixe ninguém te julgar! 

Você é linda, com todas as suas curvas e imperfeições. Você é linda, com esse cabelo enrolado e esses dentes meio tortinhos. Você e suas sardinhas no rosto, esse quadril 44 e seu sotaque maravilhoso. Você é linda, simplesmente por ser quem é. Repita isso ao espelho todos os dias em que ele insistir em te provar o contrário. Apague os padrões. Delete os preconceitos e mande a merda quem insistir que você precisa segui-los. Não seja Aline, Fernanda ou Juliana. Seja você. Porque você, menina, é linda do jeitinho que é.

E se precisar conversar... me liga ♥

 
Esse texto foi escrito como uma homenagem a minha 
vizinha e sua família - cuja identidade
 será preservada - que faleceu essa manhã. 
Mais uma  vítima da amiga.
Vá em paz, B. ♥





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2 comentários

  1. Texto maravilhoso e tocante. Parabéns pela iniciativa de falar sobre o assunto.

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    Respostas
    1. Muito obrigada Liti! O Idealiizar tá aqui pra tentar quebrar alguns tabus <3

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Comentários

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