amor

Com amor, eu

11:58


Writing time.

Querido,


Acordei me sentindo quase mutante por ter poupado minhas veias do teu veneno por tanto tempo.

Foram-se três meses desde então, sem rastro das suas marcas na minha pele, sem marcas da sua pele do meu lado da cama. Nada. E a sensação de não te escrever, não te ler e não tentar te desvendar tem findado meus super poderes.

Que tipo de mutante eu posso ser se a cada revira-volta que a vida dá eu sei bem pra onde eu quero voltar?

É quase pecado ignorar minhas falhas na tentativa frustrada de dias menos conturbados. Você não me afeta mais, consegue me ouvir? O fato, no fim, é que teu afeto me acalentou a alma e então sigo palpitando o peito por acalentos menos dóceis. Só você entende as palavras que eu tento balbuciar e não saem como o combinado, e sabe o que eu sinto quando sento do teu lado. Vamos parar de fingir que não.

Os heróis caçoam enquanto eu tento beber um gole a menos de você. Não existe mutação. Os olhos esquecem olhar, as mãos deixam de tocar, o cheiro já não se pode sentir. Como posso eu sentir-me dona de um fim que o próprio tempo tratou de dar? Se você não vem e eu não posso ir, continuar aqui, imóvel, não resolveria os papeis que eu amassei pra não cuspir as palavras que agora eu digo esperando que você saiba.

Eu espero que do outro lado o vento bata menos contra os ouvidos te permitindo ouvir mais claro do que eu posso escutar daqui. Eu não escuto quase nada, além da voz que me convence não te ligar. Às vezes eu sonho, sabia? Eu sonho que a voz cala e eu consigo discar, ouço chamar duas vezes e êxito em desligar. “Alô?” e eu começo a falar, talvez se me fosse dada a dádiva da coragem eu mandaria pro inferno as etiquetas. 

“Te acho desprezível. Teu nariz empinado cobre sua visão sobre quem você eventualmente coloca abaixo. Sua proporção é equivalente ao meu medo, esse mesmo, de nunca achar ninguém que vai te envolver e tampar os buracos que você está procurando como fechar a tanto tempo. Ninguém fecha esse buraco. Você foi quem acabou com as goteiras que pingavam do teto, gota a gota, até inundar. E apesar deu ter pouco tempo pra falar, e muita coisa pra dizer, apesar da desprezível imagem em  plural, eu ainda te vejo singular. Talvez isso não seja suficientemente necessário, mas eu precisava dizer: amar você foi a melhor coisa que me aconteceu, dentre as piores. Fica em paz.”

Enquanto em paz, lembro-me da eternidade das coisas que deixei pra trás, você não será diferente, mesmo que eu tenha desejado com todas as minhas forças que fosse, não é. Eu quis, tanto, tanto, tanto, Dex, mas não foi. Hoje não há sombra de eternidade sobre seus traços, a não ser nas lembranças que eu tento esquecer e que também vão passar. 

Então não será tão tóxico te olhar, nem será tão incontrolável me controlar. Por que a vida não tratou com zelo a ferida que você abriu, fui eu quem tratou. O tempo só passou e te arrastou junto igual um trem bala. Eu brinquei de curandeira e fui remendando o que eu tinha linha pra costurar. Parece perfeito, não parece? Pode olhar. Mas se chover, as goteiras voltam e você não vai poder enxergar. 

Enquanto eu enxugo as goteiras e as lágrimas, você também não vai olhar.

Fica em paz.

Com amor, 

Eu.



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