amor

Engole tudo

10:29

Mon amour

Sempre adepta ao "engole o orgulho, não se prive das suas vontades" e ao mesmo tempo esperando ansiosamente pelo dia de usar o "não se apega não" como status do Whatsapp numa tentativa desesperada de mostrar para o ex que "não, eu não estou em casa sofrendo de amores por você". Tudo isso com uma dose extra de selfies na balada com as amigas, mais bêbada que uma porca - igualzinha aquela que exagerou na festa de final de ano da empresa - rebolando até o chão como quem busca aceitação alheia (bem propício ao meio).

Mas o outro dia é domingo. Quem é que não se sente depressivamente carente num domingo? É dia de afundar a cara num balde de pipoca, acompanhado por uma panela enorme de brigadeiro e um filme de mocinha para me fazer chorar a noite inteira. Tô com saudade, é cara, tô com saudade. Mas para que dizer se, no fundo, eu sei que você sequer cogita a possibilidade da minha existência? Claro que não. Eu não existo longe de você e a solidão é meu pior castigo - já diriam os mestres.

Mas porque você não se basta? Eu lhe pergunto. Mas porque você não deixa de lado toda essa má vontade, mau amor e malemolência de quarentona mau comida e liga logo para ele de uma vez? Porque não engolir essa ressaca física - e moral - e passar a ignorar um pouquinho o cara do site de relacionamentos que tá doidinho pra te comer e não sai do seu pé? Porque ele me deixou e, desde o dia seguinte a minha morte emocional, passei a acreditar na lei do desapego porque desapego é sossego e eu preciso sossegar para escrever meu próximo roteiro.

A panela de brigadeiro acabou. Só sobraram aqueles milhos duros de pipoca dentro da tigela azul carregados de sal - que coloquei ali mais cedo numa esperança de salgar minha vida dramática de domingo a tarde. Aí a mocinha esta prestes a pegar o avião. O cara aparece. Mil beijos encerram o filme e quatro litros e meio de lágrimas banham meu travesseiro. É assim que eu desaprendo a desapegar.

Pego o telefone, digito rapidamente o tamanho da minha saudade e já apago a conversa por medo de ser ignorada - assim vou poder viver na ilusão de que ele morreu e por isso não me respondeu. O celular toca, tiro todo pigarro da garganta e tento uma voz sexy. "Também tô com saudade, posso passar aí?". Pode passar aqui, ali e ficar se quiser. Mas respondo com indiferença ao mesmo tempo que tento dar um jeito no cabelo e carregar os olhos de rímel.

Ele vem. Com todo aquele jeito de garoto perdido e aquele cheiro de lobo mal que espera pela oportunidade de comer a chapeuzinho. Mas que droga, porque tinha pintado meu cabelo de vermelho? Ele começa beijando o meu pescoço e descendo as mãos geladas pelas minhas costas. Lembro da mocinha do filme e essa droga de estrogênio que insiste em aparecer em momentos inoportunos. Foi ali que engoli o orgulho e outras tantas coisas mais.

Puxão de cabelo, chupão no pescoço, pernas trêmulas e respiração ofegante. 

Se o domingo já é um dia difícil para sentir saudade imagina na segunda. 







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