23 de set de 2015

Desabafo da saia curta - não, não é minha culpa

Nightmare : Fotografia | via Tumblr

Tudo começou com um assovio vindo do outro lado da rua. Rua essa que passo todos os dias a caminho da faculdade. Para outra pessoa, para um homem, isso pode ser normal. É testosterona exalando pelos poros, ou qualquer coisa do tipo. Mas não para mim.

Não atravesso uma passarela sozinha porque, numa daquelas curvas pode ter alguém me esperando. Não uso metade das roupas que tenho dentro do meu armário, porque elas mostram demais e não quero que pensem que estou assim, disponível. Não ando na rua sozinha depois que escurece, não largo meu copo na balada por medo de ser drogada por um desconhecido.

Não consigo entender como uma sociedade pode achar normal, como podem pensar, cogitar, que e culpa é minha. Da minha roupa que mostrava um pouquinho os braços ou por estar andando sozinha na rua. Como se eu tivesse parado, numa esquina qualquer da vida, e dito para o universo "hoje quero ser assediada, pode mandar".

Continuei caminhando enquanto os assovios ultrapassavam meus ouvidos. Aquele arrependimento de não ter colocado um casaquinho. 

Não precisa ser um elogio depreciativo. "Qualquer mulher gosta de ouvir que é linda", sim. Mas hoje esse "linda" pode acabar resultando em um "quero te comer, me serve vadia". E da medo. Puta que pariu, da um medo do caralho quando qualquer cara passa por mim e vira o pescoço para olhar como minha bunda mexe enquanto caminho.

Quando o cara no metro se sente no direito de "encostar acidentalmente por quinze minutos" a mão na braguilha da minha calça. Quando um desconhecido me puxa no meio da pista de dança e tenta me beijar. Da medo. E se eu gritar, será que ele me bateria? E se eu recusar, será que ele me forçaria?

Voltando da faculdade passei pelo mesmo bar. Senti alguém se levantar e em silêncio passou a caminhas atrás de mim. Acelerei. Os passos também. Podia escutar seus calçados tocando o solo e sua respiração acelerada. Peguei minhas chaves, poderia usar como arma ou qualquer coisa do tipo. Soltei meu rabo de cavalo. Eu era uma presa fácil.

Com a desculpa de olhar para atravessar a rua passei a observar meu agressor por alguns segundos mais. Cabelos compridos, ombros a mostra, cheiro suave e aquela cara, aquela mesmo, que eu fazia quando tinha acabado de ser assediada. Graças a Deus, dessa vez era só uma mulher.


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