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Série: Orange is the new black - 4ª Temporada

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Orange is the new black, apesar de uma boa série, nunca foi minha série favorita, na verdade, nem podia ser considerada uma delas. Sempre reconheci a qualidade da série, o desenvolvimento de suas personagens, as atuações, referências e os ótimos alívios cômicos. Mas nunca fui daqueles fãs que fazem declarações de amor nas redes sociais pela série, meus amores e posts eram direcionados a outros shows. Mas posso dizer que essa temporada mudou tudo. Orange is the new Black nunca teve uma temporada tão boa desde sua estréia em 2013.


Desde seu lançamento Orange se denominava “Dramédia”, ou seja, um drama com pitadas cômicas. Inclusive a série concorria sempre na categoria de Melhor Série de Comédia no Emmy, mas isso mudou. Nunca a considerei comédia, pois convenhamos que o drama supera e muito o lado cômico da série. Ela sempre se mostrou divertida, mas as histórias de seus personagens, seus dramas do dia a dia e as dificuldades do presente sempre se sobressaem e buscam o debate. Agora concorrendo em premiações com as grandes obras da TV na categoria de Drama, Orange parece ter abraçado de vez o gênero dramático e nos entregado sua temporada mais complexa e triste, e que desde o início sabia onde queria chegar.

Após a compra de Litchfield por uma empresa privada, a prisão passa por inúmeras mudanças que fazem a história ir se moldando aos poucos. Novas detentas, diminuição de verba, briga por territórios e negócios recheiam a temporada. A briga por poder cresce na cadeia, e Piper arranja inimigas em seu “negócio de calcinhas”, suas ações vão gerando reações cada vez mais difíceis de controlar e a tensão aumenta através dos episódios.


A temporada nos traz novas historias e flashbacks para apreciar, personagens já queridas pelo público como Crazy Eyes e Poussey possuem novos flashbacks, nos mostrando novas facetas a observar. Mas felizmente outras personagens ganham espaço, como Flores, que se mostrou forte e decidida, Lolly que possui uma história singelamente triste e Ramos, além das novas personagens que integram a prisão. Todas as histórias dissecam suas personagens, assim como em outras temporadas, nos mostrando aquelas mulheres não apenas como “detentas”, mas como mulheres reais, seres humanos que às vezes cometem erros.



Uma excelente crítica presente nesta temporada é a partir da presença de novos guardas, muito mais rígidos e intolerantes que os antigos. O questionamento que fica é: Se mandamos as pessoas para a cadeia para pagarem seus erros, aprenderem a lição e saírem de lá melhores pessoas. Como queremos que isso ocorra se não os tratamos como seres humanos?

As ações do novo capitão dos guardas, Piscatella, nos leva a diversas reflexões através da temporada. "Isso aqui virou um experimento social grotesco" Piper descreve perfeitamente em um episódio. Piscatella e os demais guardas gostam de mostrar que podem fazer o que quiserem com aquelas mulheres, “por que elas não são nada mais que detentas”, “elas não merecem nada”, “elas mentem assim que abrem a boca”. Mas como diz Frieda no episódio 12 “I’m a fucking human being”, será que não é necessário o mínimo de respeito? Será que não é abusivo poder apalpar durante as revistas? Ou elas não merecem consideração porque estão pagando por seus crimes?


Além de tudo nos vem a questão dos “heróis de guerra”, com o intuito de diminuir impostos, a empresa que agora gerencia Litchfield decide contratar veteranos para os postos de guarda. Mas estes não são honrosos como definem ser, nem apresentam o mínimo de respeito pelo ser humano. Um diálogo protagonizado pelos guardas Dixon e Bayley evidencia isso. Dixon revela ao amigo algumas de suas façanhas enquanto servia, casos viscerais dos quais claramente não se arrependia, mas que serviu para “matar o tédio”. Como é possível alguém revelar de forma tão banal que matou e estuprou pessoas? E ele não é o único, é apenas um dos muitos doentes que ganham emprego na prisão.

A discussão do “apenas mais um” também está presente, a revolta das detentas na season finale deixa destacada o que as pessoas sempre reinvidicam quando há morte em favelas, periferias e países desfavorecidos. A rejeição total e a culpabilidade da vítima. A revolta de Taystee em especial é a que mais toca o coração.

A temporada que se destacou pelo excelente roteiro e críticas também discutiu o capitalismo, o momento em que os indivíduos param de ser vistos como pessoas e começam a ser taxados como mercadorias. As condições em que as detentas começam a viver para a acomodação do dobro de detentas é revoltante, o significado de mais lucros para a empresa evidencia como as corporações sempre tratam os devidos envolvidos, prisioneiros ou não.


Como alívio cômico, a adição da famosa Judy King à cadeia mexe com as estruturas da prisão, e além de gerar uma discussão sobre hipocrisia também nos remete a muita risada, principalmente envolvendo Cindy. Além do envolvimento com Judy, Cindy agora judia recebe como colega de cela uma muçulmana, gerando inúmeros plots engraçados.



As referências que vão de Breaking Bad, Game of thrones, The walking dead, Sherlock a uma linda homenagem à Sociedade dos poetas mortos tornam a temporada melhor ainda.

Orange is the new Black cresceu muito e amadureceu ainda mais, a série sempre foi bem resolvida em desenvolver personagens, e nunca “demonizava” ninguém, apesar de seus erros. Seu foco sempre foi as pessoas como humanos errôneos, e claro alem de tudo, rir de boa parte desses erros. Nunca uma temporada da série me surpreendeu e conquistou tanto. A beleza da obra foi lapidada aos poucos e crescendo junto com sua trama e protagonistas. Alguns personagens são construídos outros possuem seu revés, mas todos com uma intensidade e poderio considerável.

É incrível ver o que a série construiu nessa temporada, os episódios causam alegria, tristeza, nojo, tensão, êxtase e choque. Sempre proporcionando uma emoção ou visão nova. É sempre muito fácil tomar uma decisão que afetará outras pessoas quando se está olhando de fora, mas quando você para e escuta, vê e aprende você percebe que a complexidade da questão vai muito além do que nossos olhos podem ver e do que julgamos conhecer.



Já renovada para mais três temporadas, Orange is the new black teve sua temporada mais intensa e pesada, e ao mesmo tempo mais fácil de devorar. Realidades e absurdos discutidos ali a tornaram a MELHOR TEMPORADA que a série já teve.



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