14 de ago de 2018

Precisamos falar sobre Demi



Desde o dia em que Demi foi internada eu estou pensando em escrever esse texto, ou até antes. Eu relutei muito para digitar essas palavras aqui, para todos possam ler, e as escrevo com lágrimas nos olhos porque sim, precisamos falar sobre isso. E vou tentar colocar tudo em uma ordem para fazer sentido, então vamos começar por mim.

Muito antes da Demi aparecer, muito antes dessa palavra ser tão famosa, muito antes de crianças e jovens serem processados por isso, eu sofri bullying. Mas é claro, sempre quando ia falar disso para as pessoas mais velhas, que eram próximas a mim, diziam "ah, se ele tá puxando o seu cabelo é porque gosta de você", "se as suas amigas dizem que você é feia é porque elas sentem inveja e queriam ser iguais a você". 

Não, adultos.

A vida não é tão simples assim.

Na verdade isso vem de geração, mas não vamos nos apegar muito a isso porque esse texto já vai ser longo demais. O fato é que, conforme o tempo foi passando, eu comecei a descobrir que tinha alguma coisa errada nessa história e fui ficando cada vez mais abatida.

Voltando a Demi, eu sofri anorexia também. Sim, choquem. Porque eu pensava que se as pessoas me vissem mais magra iam começar a gostar de mim, o que não aconteceu. Primeira vez que eu desmaiei coloquei a culpa no álcool, mas já estava a mais de três dias sem comer. Consequentemente comecei a me mutilar também, porque eu achava que todas as coisas ruins que estavam acontecendo comigo eram culpa minha.

Mas não eram, nem todas.

Se meus pais separaram, a culpa era minha. Se as pessoas, principalmente os meninos, não gostavam de mim era porque eu estava fora do padrão, muito gorda. Me culpava por não conseguir emagrecer, como num passe de mágica. Sentia inveja das minhas amigas quando elas comiam um hambúrguer com batata frita e eu ficava só na água, porque só de olhar aquilo eu já engordava.

E eu sofri, e muito.

Não precisei ser internada nem nada do tipo, mas foi quase. Aos 16 eu estava um caco. Com olheiras gigantes, magra, mais não saudável e mentia quando dizia que tinha gastado todo o meu dinheiro com comida. Mentira, eu comprava vodka e misturava com todas as substancias liquidas que encontrava na frente.

Mas afinal, o que isso tem haver com a Demi?

Desde muito nova ela foi sucesso da Disney, por anos. Não sei qual é a relação dela com os pais, empresários e afins, mas será que foi essa profissão que ela realmente escolheu ou escolheram por ela? Mas também não vamos entrar nesse mérito, porque não consigo imaginar um mudo onde a Demi Lovato não seria ela mesma.

Desde muito nova ela já lidava com as pessoas ditando o que ela tinha que usar, como ela deveria ser e de que forma ela deveria agir. A forma com que o seu corpo deve parecer para agradar a todas as pessoas que não estão nem aí. Os fãs vão gostar de vê-la saudável, fora-se o padrão de beleza. Vários comentários chamando ela de gorda antes, magra demais agora... o que vocês querem?

Ela é um ser humano, de carne e osso, como todos nós. Ninguém merece passar por isso, então parem de julgar as outras pessoas para que elas sejam o seu padrão de beleza! Isso nos leva à depressão, cortes, anorexia, álcool e drogas. Então parem, por favor - nessa parte estou chorando e implorando.

Parem.

Cada um tem a sua beleza, cada um tem o seu talento então não adianta forçar uma coisa porque não vai encaixar. Somos todos diferentes um do outro, e essa é a graça da vida. No mesmo dia que a Demi foi internada meu pai disse "ah, ela se cortava, ela era bêbada, fez uma música pedindo desculpas. Era uma drogada".

Aquilo me doeu demais e eu chorei, sem parar.

A diferença entre nós duas é que ela tem talento para cantar e eu tenho talento para escrever...

Stay strong Demi, always. Look at your own wrists and feel this, please.

Ah, muita gente me pergunta se a Amanda, do meu primeiro livro, foi inspirada em mim e  uma coisa que eu sempre respondi: a gente não escreve o que a gente não sabe e o que não vivemos.


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