13 de nov de 2018

Guia de sobrevivência à depressão



Este guia é baseado em minha própria experiência, então antes de falar sobre mecanismos que podem nos ajudar a lidar com a depressão, vou apresentar minhas "credenciais" no assunto, para que vocês possam entender um pouco mais sobre o que é ter depressão do ponto de vista de uma pessoa que tem depressão, tendo em mente que não sou formada em psiquiatria ou psicologia.

Fui diagnosticada com depressão crônica aos 19 anos, mas meu histórico com a doença é muito mais antigo. Comecei apresentar sintomas por volta dos 6 anos de idade, na época, contei para minha mãe que eu me sentia como "uma formiguinha sendo pisoteada por elefantes" e tinha a sensação constante de estar sonhando, como se eu não estivesse presa ao meu corpo. Preocupada, ela contou isso para meu pediatra, que pediu uma série de exames neurológicos que apontaram para a normalidade e ficou por isso mesmo. Entendo que naquela época ninguém nem imaginava que uma criança podia sofrer de depressão, quando muito sabiam o que era depressão.

A coisa piorou na adolescência, quando comecei a ter crises de pânico, ansiedade, fobia social e tendências suicidas. Mas aí disseram que era coisa de adolescente, que passaria com o tempo. Bom, não passou. E eu só consegui ajuda no dia em que não consegui realmente sair da cama. Daí em diante foi uma série de psicólogos, psiquiatras, neurologistas, remédios e terapias das mais variadas.

Tomei medicação prescrita por psiquiatras por 6 anos, dos 19 aos 25 anos. Parei após uma longa e árdua descontinuação, ainda acompanhada por uma psiquiatra, porque odiava a sensação de depender de uma droga para me sentir bem, mas reconheço que, e friso bastante essa parte, os medicamentos foram extremamente importantes e necessários para que eu me fortalecesse e pudesse desenvolver meus próprios mecanismos de lidar com a depressão. Acredito, pela minha experiência e por relatos de amigas e amigos que também tem depressão, que não há uma cura definitiva, porque ela muda nossa percepção de mundo, nos faz mais sensíveis. O que pode mudar é forma de encara-la e lidar com ela.

Dito isso, o primeiro tópico desse guia é:

ACEITAÇÃO.
Assumir para si mesmo é o primeiro passo para tratar a depressão (e outras doenças psiquiátricas). E eu não estou falando que é fácil, eu mesma só fui conseguir assumir muito tempo depois de ter começado meu tratamento. Depressão, assim como outras tantas doenças psiquiátricas, infelizmente, ainda são um grande tabu. E a vergonha vem acompanhada da solidão, que potencializada pela depressão nos leva a nos autoflagelar das mais variadas maneiras, chegando ao extremo que pode ser o suicídio, proposital ou acidental, porque suicidas nem sempre querem realmente acabar com a própria vida, às vezes só querem escapar da dor.

Por isso, com a aceitação pessoal, vem o próximo passo:

TENHA UM GRUPO DE APOIO.
Quando comecei a me abrir e assumir para outras pessoas que eu tenho depressão, a resposta era sempre meio parecida: "mas você é uma pessoa tão pra cima". Essa é a pegadinha da depressão. Pessoas com depressão não são o tempo todo melancólicas como se espera. Nós temos vidas, nós temos sonhos, trabalhamos, estudamos, vamos ao mercado, a festas, ao cinema, sorrimos. Nada disso nos faz menos doentes, pelo contrário. O esforço quase sobre humano que fazemos para nos sentir bem e/ou demonstrar que estamos bem pode surtir efeito contrário, porque é extramente exaustivo. Por isso é muito importante contar com pessoas que saibam e entendam nossa condição, para que te ajudem a se sentir seguro quando as crises estiverem no auge. Podem ser familiares, amigos ou mesmo um terapeuta (se você não tem dinheiro para pagar por psicólogos ou psiquiatras, você pode procurar o SUS e outras instituições que oferecem esse serviço gratuitamente, como universidades e ongs).

O próximo passo pode parecer com o primeiro, mas não é:

TOME CONSCIÊNCIA.
Aprenda a distinguir as coisas que te puxam pra baixo, para evita-las, e as coisas que te puxam pra cima, para procura-las quando precisar de apoio. Esse passo também não é fácil, porque você pode ter que cortar relacionamento com certas pessoas, evitar situações, lugares, filmes e uma séries de coisas que possam vir a ser gatilhos, isto é, coisas que pioram sua condição. Lembre-se: priorizar sua saúde mental não é egoismo ou covardia. É preciso ter muita coragem para encarar e reconhecer seus demônios, mas essa é a única maneira de tomar as rédeas e não deixar que essa doença te defina e defina sua vida (ou o fim dela). Quando você toma essa consciência, fica mas fácil identificar e lidar com as crises mais fortes porque vai saber que está em crise e pode então procurar o que precisa para se sentir melhor. Isso é muito pessoal, mas você encontrar válvulas de escape em várias coisas, como confort séries ou filmes, mantras, orações, incensos, chás, esportes, escrever, desenhar, trabalhos manuais, enfim, o que quer que seja que te distraia da dor.

Uma outra coisa que é muito importante em todo esse processo é saber que você não está sozinho. Só no Brasil há cerca de 11,5 milhões pessoas com a doença, sendo 322 milhões de pessoas com depressão no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Além disso, só o Brasil registra cerca de 11 mil casos de suicídio por ano, segundo o Ministério da Saúde.

Por isso é tão importante levar essa doença a sério. Cuidem de si e dos seus, porque depressão mata, como matou nossa queria Luísa Mendes, parceira do Idealiizar desde a fundação. Uma perda irreparável, mas que nos despertou para botar em evidência esse assunto que é tão delicado e tão tabu ainda nos dias hoje.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários